segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Lavava os pratos de maneira meticulosa, percorrendo os dedos na porcelana, até senti-la lisa. Passou a tratar os talheres da mesma forma, ignorando os respingos dágua em sua camiseta, que se misturavam às suas lagrimas silenciosas.
Pegou a longa faca de cozinha e suspirou uma unica vez. Lavou-a, secou-a, e ficou parada, olhando fixamente o objeto em suas mãos.
E num ato egoista e frio, passou a lamina em seu braço, fazendo um profundo e comprido corte, que ia da metade do seu braço, até a palma da mão.
Voltou a lavar a faca e, desta vez, depositou-a no escorredor.
Puxou uma cadeira, proxima da pia, sentou-se e deixou o braço pender ao lado, irritada com a poça que se formava aos seus pés.
Resolveu não dar importancia...
Simplesmente resignou-se a fechar os olhos e deitar a cabeça sobre o outro braço, em cima da mesa. Ficou assim por tempo indeterminado, respirando lentamente e sentindo uma certa ardencia no corte.
Arcou os cantos dos labios num sorriso tremulo, e resolveu que tinha que reagir, meio a contragosto.
Abriu os olhos, lavou as lagrimas na pia da cozinha mesmo, secou o rosto com a toalha de papel, chacoalhou a cabeça numa negativa muda.
Empurrou a pia, com as duas mãos, afastando o corpo num sopetão, da beirada fria.
Caminhou lentamente para o quarto das crianças, já totalmente escrava daqueles rostinhos plácidos, cobriu-os e, afagando suas cabeças, caminhou até sua cama, afastou as cobertas e deitou-se.
Na manhã seguinte, acordou cedo, pegou a faca do escorredor e usou-a para cortar o sanduiche das crianças, fazendo 4 pequenos triangulos, que é como eles gostam...
E, com uma certa nostalgia, encarou a lamina, enquanto a colocava dentro da pia.